segunda-feira, 17 de outubro de 2011

CONTINUAÇÃO DA POSTAGEM ANTERIOR



continuação do poster anterior...

Naquele momento, o motorista, que estava a olhar para outra parte, infelizmente, atropelou uma cabra, e aqueles três homens prosseguiram na discussão sobre o percebimento, completamente alheios ao atropelamento da cabra. 
Quando essa falta de atenção lhes foi apontada, os três cavalheiros, que tanto se empenhavam em estar atentos, demonstraram grande surpresa.
A mesma coisa acontece com a maioria de nós. Não estamos conscientes nem das coisas exteriores nem das interiores. 
Se desejardes compreender a beleza de uma ave, de uma mosca, de uma folha, de uma pessoa, com todas as suas complexidades, tendes de dispensar-lhe toda a vossa atenção - e isso é percebimento. 
E só podeis dar toda a atenção quando tendes zelo, quer dizer, quando amais realmente o compreender; aplicais então ao descobrimento todo o vosso coração e toda a vossa mente.
Esse percebimento é coisa semelhante a viverdes com uma serpente em vosso quarto; observais cada um dos seus movimentos, sois altamente sensíveis a cada ruído que ela produz. 
Tal estado de atenção é energia total; nesse percebimento se revela instantaneamente a totalidade de vós mesmos.
Ao olhardes-vos dessa maneira profunda podeis descer mais fundo ainda.
Empregando as palavras “mais fundos” não estamos fazendo comparação. Nós pensamos comparativamente - profundo e superficial feliz e infeliz. 
Estamos sempre a medir, a comparar. Mas, será que existe em alguém mesmo tal estado - o superficial e o profundo? Quando digo "minha mente é superficial, mesquinha, estreita, limitada" - como sei dessas coisas? Porque, comparei minha mente com a vossa mente, que é mais brilhante, tem mais capacidade, é mais inteligente e alertada. 
Posso conhecer minha pequenez sem comparação? 
Quando sinto fome, não comparo essa fome com a fome que ontem senti. 
A fome de ontem é uma ideia, uma lembrança.
Se sempre estou a medir-me por vós, a esforçar-me para ser igual a vós, estou então negando a mim mesmo. 
Por conseguinte, estou criando uma ilusão. 
Ao compreender que a comparação, em qualquer forma, só leva a uma ilusão e um sofrimento maiores ainda (tal como acontece quando analiso a mim mesmo, aumentando o meu conhecimento pouco a pouco, ou identificando-me, com algo fora de mim mesmo - o Estado, um salvador ou uma ideologia), ao compreender que todos esses processos só levam a mais ajustamento e conflito, abandono toda comparação. 
Minha mente já não está a buscar. Muito importa compreender isso. Minha mente já não está então a tatear, a buscar, a indagar. Isso não significa estar satisfeito com as coisas como são, porém, sim, que a mente não tem ilusão nenhuma. 
Pode então mover-se numa dimensão totalmente diferente. A dimensão na qual vivemos nossa vida cotidiana, de dor, de prazer, de medo, condiciona a mente, limita-lhe a natureza, e quando aquela dor, aquele prazer e aquele medo deixaram de existir (o que não significa não ter mais alegria; a alegria é coisa totalmente diferente do prazer), a mente passa então a funcionar numa dimensão diferente, na qual não existe conflito, nenhuma ideia de diferença.
Verbalmente, só podemos chegar até esse ponto; o que existe além não pode ser expresso em palavras, porque a palavra não é a coisa. Até aqui, pudemos descrever, explicar, mas nem palavras nem explicações podem abrir a porta. 
O que abrirá a porta é o percebimento e a atenção diários - percebimento da maneira como falamos, do que dizemos, de nossa maneira de andar, do que pensamos. 
Isso é como limpar e manter em ordem um aposento.
Manter o aposento em ordem é importante a um respeito e totalmente sem importância a outro respeito. Deve haver ordem no aposento, mas a ordem não abrirá a porta ou a janela. 
O que abre a porta não é vossa volição ou desejo.
Não se pode de modo nenhum chamar o outro "estado de espírito".
O que se pode fazer é apenas manter o aposento em ordem, o que significa ser virtuoso por amor à virtude e não pelo que isso nos trará ser equilibrado, racional, ordenado.
Então, talvez, se tiverdes sorte, a janela se abrirá e a brisa entrará. Ou pode ser que não. 
Tudo depende do estado de vossa mente. E esse estado da mente só pode ser compreendido por vós mesmo ao observá-lo sem tentar moldá-lo, sem ser parcial, sem contrariá-lo, sem jamais concordar, justificar, condenar, julgar; quer dizer, estar vigilante sem fazer nenhuma escolha. 
E, em razão desse percebimento sem escolha, a porta talvez se abra e conhecereis aquela dimensão em que não existe o conflito nem o tempo.

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Mel

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